O tempo não volta

#TextoPessoal
27/02/2017 - Vi Eb

Oi, já te disseram que você está perdendo tempo? Ele não volta! O tempo não volta, menina. Corta o cabelo, faz uma nova tatuagem, ouça sua música favorita, pegue um caderno velho, arrume a mochila.
É tempo de despedida.

Deixa o vento te beijar, novos caminhos vão te desafiar. A vida perfeita você quem faz, larga tudo. Deixa tudo pra trás. Recomece. Vamos, não esquece!
O tempo não volta, menina.
Trilhe seu caminho agora. Parta.
Busque o trem. Decida. Em contrapartida o tempo não volta.
Ele não volta, menina.

Vyb

Eu sou – Viviane Eb.

Respira fundo, preserva a alma, lava o rosto e recomeça de novo…

Menina, mulher.

Decidida, insegura

Como ela poderia classificar-se em tão poucas palavras?

Jovem, era ela um turbilhão de emoções.  A intensidade de seus sonhos transbordavam em sua infinitude. Poeta, escritora. Não precisava denominar-se, seu amor pela escrita era infinito, paixão única e irrestringível. Algumas coisas não precisavam serem padronizadas, apenas sentidas. A verdadeira beleza consistia em ser autêntica.

Mulher, menina

Feroz, resolvida!

#TextoPessoal
27/02/2017 - Viviane E.

Gente desculpem pela falta de criatividade, ultimamente ando num bloqueio criativo do caramba 😂 😂 😂

A essencialidade

Sentei-me junto as flores,
À elas pedi, que ensinassem-me a beleza da arte
em crescer.

Junto as montanhas mais altas,
curvei-me a elas,
respeitosamente desejando apenas esquecer.

Em uma noite estrelada, sussurrei para a escuridão:
Por favor não permaneça,
Por favor não permaneça,
Comigo quero apenas o essencial: as flores, as montanhas e as estrelas.

Texto Pessoal - Viviane E.
 20/02/2017

01

Happy Valentine’s Day

 

Bom dia ♥

Hoje é um dia muito especial ” Valentine’s day” ou, Dia de São Valentim. Valentine’s day é comemorado hoje dia 14 de Fevereiro em diversos países, aqui no Brasil comemoramos o dia dos namorados  só dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, mas já que em todos os lugares está esse clima de puro amor, não poderia deixá-lo passar em branco. Para comemorar deixo-lhes um dos meus poemas favoritos de Fernando Pessoa:  O Amor.

O Amor

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

 

Fonte: Poema via escolaeducacao

02

Reinvenção – Cecília Meireles

 NOTA : Como o último dia do mês, gostaria de deixar-lhes um poema de Cecília Meireles. Apesar de Janeiro já ter ido embora, muita coisa ainda pode acontecer. Podemos mudar, podemos reinventar-nos, enquanto houver fôlego em nossos pulmões, podemos lutar! O quer quero dizer é que nunca é tarde pra recomeçar ♥♥♥ #BeAFighter

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua,vem,retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
Desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.

Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida
a vida só é possível
reinventada.

 

Fontes: Livro – Cecília Meireles – Maria Fernanda “Seleção” – Coleção Melhores Poemas. Página 45/46

 

Conto – A Pata do Macaco – W. W. Jacobs

Boa noite a todos ♥
Achei que este sábado passou muito rápido, não gostei 😮 Pensei em vários tipos de assuntos para tratar neste post, porém não queria algo muito elaborado então resolvi trazer pra vocês um conto que li a muito tempo atrás e que achei fantástico. A Pata do Macaco (1902)  foi o único conto (dentre tantos textos,livros,poemas,contos) lidos do gênero horror que realmente me deixou apreensiva. 
Nesta noite preparem a pipoca, acomodem-se, aproveitem a chuvinha (se estiver chovendo ai) e divirtam-se, mas cuidado, não me responsabilizo se vocês não conseguirem dormir. HAHAH 😀 Ok, não chega a tanto.

OBSERVAÇÃO: Não se esqueçam de deixar sua opinião. O que acharam? Gostaram? Já leram? E o filme alguém já viu ? Achei o conto muito macabro, adorei. #Risos 

#CuidadoComOQueVocêDeseja!

  • Nota rápida sobre o autor :
 William Wymark “W. W.” Jacobs (1863 -1943), foi um escritor inglês de contos e romances. O conto macabro ” The Monkey’s Paw” (A pata do macaco) é sua história mais famosa. Outras obras em destaque são : Many Cargoes (1896); The Lady of the Barg (1902); The Ghost of Jerry Bundler (1908);  Admiral Peters (1909) …

♥♥♥♥♥

A PATA DO MACACO (THE MONKEY’S PAW)

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

– Ouça o vento — disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

– Estou escutando — disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.

– Xeque.

– Eu duvido que ele venha hoje à noite — disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

– Mate — replicou o filho.

– Essa é a desvantagem de se viver tão afastado — vociferou o Sr. White, com um a violência súbita e inesperada. — De todos os lugares desertos e lamacentos para se viver, este é o pior. O caminho é um atoleiro, e a estrada uma torrente. Não sei o que as pessoas têm na cabeça. Acho que, como só sobraram duas casas na estrada, elas acham que não faz mal.

– Não se preocupe, querido — disse a esposa em tom apaziguador. — Talvez você ganhe a próxima partida.

O Sr. White levantou os olhos bruscamente a tempo de perceber uma troca de olhares entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa atrás da barba fina e grisalha.
– Aí vem ele — disse Herbert White, quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se aproximaram da porta.

O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira e, ao abrir a porta, foi ouvido cumprimentando o recém chegado. Este também o cumprimentou, e a Sra. White tossiu ligeiramente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, com olhos pequenos e nariz vermelho.

– Sargento Morris — disse ele, apresentando-o.

O sargento apertou as mãos e, sentando-se no lugar que lhe ofereceram perto do fogo, observou satisfeito o anfitrião pegar uísque e copos, e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Depois do terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes, e ele começou a falar, o pequeno círculo familiar olhando com interessante este visitante de lugares distantes, quando ele empertigou os ombros largos na cadeira e falou de cenários selvagens e feitos intrépidos: de guerras, pragas e povos estranhos.

– Vinte e um anos nessa vida — disse o Sr. White, olhando para a esposa e o filho. — Quando ele foi embora era um rapazinho no armazém. Agora olhem só para ele.

– Ele não parece ter sofrido muitos reveses — disse a Sra. White amavelmente.

– Eu gostaria de ir à Índia — disse o velho — só para conhecer, compreende?

– Você está bem melhor aqui — disse o sargento, sacudindo a cabeça. Pôs o copo vazio na mesa e, suspirando baixinho, sacudiu a cabeça novamente.

– Eu gostaria de ver aqueles velhos templos, os faquires e os nativos — disse o velho. — O que foi que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco ou algo assim Morris?

– Nada — disse o soldado rapidamente. — Não é nada de importante.

– Pata de macaco? — perguntou a Sra. White, curiosa.

– Bem, é só um pouco do que se poderia chamar de magia, talvez — disse o sargento com falso ar distraído.

Os três ouvintes debruçaram-se nas cadeiras interessados. O visitante levou o copo vazio à boca distraidamente e depois recolocou-o onde estava. O dono da casa tornou a enchê–lo.

– Aparentemente — disse o sargento, mexendo no bolso — é só uma patinha comum dissecada.
Tirou uma coisa do bolso e mostrou-a. A Sra. White recuou com uma careta, mas o filho, pegando-a, examinou-a com curiosidade.

– E o que há de especial nela? — perguntou o Sr. White ao pegá–la da mão do filho e, depois de examiná–la, colocá–la sobre a mesa.

– Foi encantada por um velho faquir — disse o sargento –, um homem muito santo. Ele queria provar que o destino regia a vida das pessoas, e que aqueles que interferissem nele seriam castigados. Fez um encantamento pelo qual três homens distintos poderiam fazer, cada um, três pedidos a ela.

A maneira dele ao dizer isso foi tão solene que os ouvintes perceberam que suas risadas estavam um pouco fora de propósito.

– Bem, por que não faz os seus três pedidos, senhor? — disse Herbert White astutamente.

O soldado olhou para ele como olham as pessoas de meia–idade para um jovem presunçoso.

– Eu fiz — disse ele calmamente, e seu rosto marcado empalideceu.

– E teve mesmo os três desejos satisfeitos? — perguntou a Sra. White.

– Tive — disse o sargento, e o copo bateu nos dentes fortes.

– E alguém mais fez os pedidos? — insistiu a senhora.

– O primeiro homem realizou os três desejos — foi a resposta. — Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi para morrer. Por isso é que consegui a pata.

Seu tom de voz era tão grave que o grupo ficou em silêncio.

– Se você conseguiu realizar os três desejos, ela não serve mais para você Morris — disse o velho finalmente. — Para que você guarda essa pata?

O soldado meneou a cabeça.

– Por capricho, suponho — disse lentamente. — Cheguei a pensar em vendê–la, mas acho que não o farei. Ela já causou muitas desgraças. Além disso, as pessoas não vão comprar. Acham que é um conto de fadas, algumas delas; e as que acreditam querem tentar primeiro para pagar depois.

– Se você pudesse fazer mais três pedidos — disse o velho, olhando para ele atentamente –, você os faria?
– Eu não sei — disse o outro. — Eu não sei.

Pegou a pata e, balançando-a entre os dedos, de repente jogou-a no fogo.

White, com um ligeiro grito, abaixou-se e tirou-a de lá.

– É melhor deixar que ela se queime — disse o soldado solenemente.

– Se você não quer mais, Morris — disse o outro –, me dá.

– Não — disse o amigo obstinadamente. — Eu a joguei no fogo. Se você ficar com ela, não me culpe pelo que acontecer. Jogue isso no fogo outra vez, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou sua nova aquisição atentamente.

– Como você faz para pedir? — perguntou.

– Segure a pata na mão direita e faça o pedido em voz alta — disse o sargento –, mas eu o advirto sobre as conseqüências.

– Parece um conto das Mil e uma noites — disse a Sra. White, ao se levantar e começar a pôr o jantar na mesa. — Você não acha que deveria pedir quatro pares de mão para mim?

– Se quer fazer um pedido — disse ele asperamente –, peça algo sensato. O Sr. White colocou a pata no bolso novamente e, arrumando as cadeiras acenou para que o amigo fosse para a mesa. Durante o jantar o talismã foi parcialmente esquecido, e depois os três ficaram escutando, fascinados, um segundo capítulo das aventuras do soldado na Índia.

– Se a história sobre a pata de macaco não for mais verdadeira do que as que nos contou — disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, que partiu a tempo de pegar o último trem–, nós não devemos dar muito crédito a ela.

– Você deu alguma coisa a ele por ela, papai? — perguntou a Sra. White, olhando para o marido atentamente.

– Pouca coisa — disse ele, corando ligeiramente. — Ele não queria aceitar, mas eu o fiz aceitar. E ele tornou a insistir que eu jogasse fora.

– É claro — disse Herbert, fingindo estar horrorizado. — Ora, nós vamos ser ricos, famosos e felizes. Peça para ser um imperador, papai, para começar, então você não vai ser mais dominado pela mulher.
Ele correu em volta da mesa, perseguido pela Sra. White armada com uma capa de poltrona.
O Sr. White tirou a pata do bolso e olhou para ela dubiamente.

– Eu não sei o que pedir, é um fato — disse lentamente. — Eu acho que tenho tudo o que quero.
– Se você acabasse de pagar a casa ficaria bem feliz, não ficaria? — disse Herbert, com a mão no ombro dele. — Bem, peça 200 libras, então, isso dá.

O pai, sorrindo envergonhado pela própria ingenuidade, segurou o talismã, quando o filho, com uma cara solene, um tanto franzida por uma piscadela de olhos para a mãe, sentou-se no piano e tocou alguns acordes para fazer fundo.

– Eu desejo 200 libras — disse o velho distintamente.

Um rangido do piano seguiu-se às palavras, interrompido por um grito estridente do velho. A mulher e o filho correram até ele.

– Ela se mexeu — gritou ele, com um olhar de nojo para o objeto caído no chão. — Quando eu fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra.

– Bem, eu não vejo o dinheiro — disse o filho ao pegá–la e colocá–la em cima da mesa — e aposto que nunca vou ver.

– Deve ter sido imaginação sua, papai — disse a esposa, olhando para ele ansiosamente.

Ele sacudiu a cabeça.

– Não faz mal, não aconteceu nada, mas a coisa me deu um susto assim mesmo.

Eles se sentaram perto do fogo novamente enquanto os dois homens acabavam de fumar cachimbos. Lá fora, o vento zunia mais do que nunca, e o velho teve um sobressalto com o barulho de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio estranho e opressivo abateu-se sobre todos os três, e perdurou até o velho casal se levantar e ir dormir.

– Eu espero que vocês encontrem o dinheiro dentro de um grande saco no meio da cama — disse Herbert, ao lhes desejar boa noite — e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês guardarem seu dinheiro maldito.

Ficou sentado sozinho na escuridão, olhando para o fogo baixo e vendo caras nele. A última cara foi tão feia e tão simiesca que ele olhou para ela assombrado. A cara ficou tão vivida que, com uma risada inquieta, ele procurou um copo na mesa que tivesse um pouco de água para jogar no fogo. Sua mão pegou na pata de macaco, e com um ligeiro estremecimento ele limpou a mão no casaco e foi dormir.

II

– Eu creio que todos os velhos soldados são iguais — disse a Sra. White. — Essa idéia de dar ouvidos a tal tolice! Como é que se pode realizar desejos hoje em dia? E se fosse possível, como é que iam aparecer 200 libras, papai?Na claridade do sol de inverno, na manhã seguinte, quando este banhou a mesa do café, ele riu de seus temores. Havia um ar de naturalidade na sala que não existia na noite anterior, e a pequena pata suja estava jogada na mesa de canto com um descuido que não atribuia grande crença a suas virtudes.

– Morris disse que as coisas aconteciam com tanta naturalidade — disse o pai — que a gente podia até achar que era coincidência.– caindo do céu, talvez — disse Herbert, com ar brincalhão.

– Bem, não gaste o dinheiro antes de eu voltar — disse Herbert, ao se levantar da mesa. — Estou com medo de que você se torne um homem mesquinho e avarento, e vamos ter de renegá–lo.

A mãe riu e, acompanhando-o até a porta, viu-o descer a rua. Voltando à mesa do café, divertiu-se à custa da credulidade do marido. O que não a impediu de correr até a porta com a batida do carteiro, nem de se referir a sargentos da reserva com vício de beber, quando descobriu que o correio trouxera uma conta do alfaiate.

– Herbert vai dizer uma das suas gracinhas quando chegar em casa — disse ela, quando se sentaram para jantar.

– Com certeza — disse o Sr. White, servindo-se de cerveja –, mas, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão; eu posso jurar.

– Foi impressão — disse a senhora apaziguadoramente.

– Estou dizendo que se mexeu — replicou o outro. — Não há dúvida; eu tinha acabado… O que houve?
A mulher não respondeu. Estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora, que, espiando com indecisão para a casa, parecia estar tentando tomar a decisão de entrar. Lembrando-se das 200 libras, ela reparou que o estranho estava bem–vestido e usava um chapéu de seda novo.
Por três vezes ele parou no portão, e depois caminhou novamente. Da quarta vez ficou com a mão parada sobre ele, e depois com uma súbita resolução abriu-o e entrou. A Sra. White no mesmo momento desamarrou o avental rapidamente, colocando-o debaixo da almofada da cadeira. Convidou o estranho, que parecia deslocado, a entrar. Ele olhou para ela furtivamente, e ouviu preocupado, a senhora desculpar-se pela aparência da sala, e pelo casaco do marido, uma roupa que ele geralmente reservava para o jardim. Então ela esperou, com paciência, que ele falasse do que se tratava, mas, a princípio, ele ficou estranhamente calado.

– Eu… pediram–me para vir aqui — disse ele finalmente, e abaixando-se tirou um pedaço de algodão das calças. — Eu venho representando “Maw&Meggins”.

A senhora sobressaltou-se.

– Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, ofegante — Acontecem alguma coisa a Herbert? O que é? O que é?

O marido interveio.

– Calma, calma, mamãe — disse ele rapidamente. — Sente-se e não tire conclusões precipitadas. O senhor certamente não trouxe más notícias, não é, senhor — e olhou para o outro ansiosamente.

– Eu lamento… — começou o visitante.

– Ele está ferido? — perguntou a mãe desesperada.

O visitante assentiu com a cabeça.

– Muito ferido — disse. — Mas não está sofrendo.

– Ah, graças a Deus! — disse a senhora, apertando as mãos. — Graças a Deus! Graças…

Parou de falar de repente quando o significado sinistro da afirmativa se abateu sobre ela, e ela viu a terrível confirmação de seus temores no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, menos perspicaz, pôs a mão trêmula sobre a dele. Seguiu-se um demorado silêncio.

– Ele foi apanhado pela máquina — repetiu o Sr. White, estonteado. — Ah! sim.

Ficou sentado olhando para a janela e, tomando a mão da esposa entra as suas, apertou-a como tinha vontade de fazer nos velhos tempos de namoro há quase 40 anos.

– Ele era o único que nos restava — disse ele, voltando-se amavelmente para o visitante. — É difícil.
O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.

– A firma me pediu para transmitir os nossos sinceros pêsames a vocês por sua grande perda — disse ele, sem olhar para trás. — Eu peço que compreendam que sou apenas um empregado da firma e estou apenas obedecendo ordens.

Não houve resposta; o rosto da senhora estava branco, os olhos parados e a respiração inaudível; no rosto do marido havia um olhar que o amigo sargento talvez tivesse na primeira batalha.

– Devo dizer que “Maw&Meggins” estão isentos de toda responsabilidade — continuou o outro. — Eles não têm nenhuma dívida com a família, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam presenteá–los com uma certa soma como compensação.

O Sr. White largou a mão da esposa e, pondo-se de pé, olhou para o visitante horrorizado. Seus lábios secos pronunciaram as palavras:
– Quanto?

– Duzentas libras — foi a resposta.

Indiferente ao grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um homem cego e caiu, desfalecido, no chão.

III

No enorme cemitério novo, a alguns quilômetros de distância, os velhos enterraram seu morto e voltaram para casa mergulhada em sombras e silêncio. Tudo terminara tão rápido que a princípio nem se davam conta do que acontecera, e ficaram num estado de expectativa como se fosse acontecer mais alguma coisa — algo mais que aliviasse esse fardo, pesado demais para corações velhos.

Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação — a resignação desesperançada dos velhos, às vezes chamada erradamente de apatia. Algumas vezes nem trocavam uma palavra, pois agora não tinham nada do que falar e os dias eram compridos e desanimados.

Foi por volta de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu o braço e viu-se sozinho. O quarto estava no escuro e o ruído de soluços baixinhos vinha da janela. Ele se levantou na cama e ficou ouvindo.

– Volte para a cama — disse ele ternamente. — Você vai ficar gelada.

– Está mais frio para ele — disse a senhora, e chorou novamente.

O som de seus soluços apagou-se nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos pesados de sono. Ele cochilava a todo instante e acabou pegando no sono, quando um súbito grito histérico da esposa o despertou com um sobressalto.

– A pata! — gritou histericamente. — A pata de macaco!

Ele se levantou, alarmado.

– Onde? Onde está? O que houve?

Ela correu agitada até ele.

– Eu quero a pata — disse ela calmamente. — Você não a destruiu?

– Está na sala, em cima da prateleira — replicou ele atônito. — Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, debruçando-se, beijou-o no rosto.

– Só tive essa idéia agora — disse ela histericamente. — Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?

– Pensar em quê? — perguntou ele.

– Nos outros dois desejos — replicou ela rapidamente. — Nós só fizemos um pedido.

– Não foi suficiente? — perguntou ele, irado.

– Não — gritou ela, triunfante; — ainda vamos fazer um.

Desça, apanhe a pata rapidamente, e deseje que o nosso filho viva novamente.

O homem sentou-se na cama e arrancou as cobertas de cima do corpo trêmulo.

– Meu bom Deus, você está louca! Gritou ele, horrorizado.

– Pegue aquela coisa — disse ela, ofegante –, pegue depressa, e faça o pedido… Ah, meu filho, meu filho!
O Marido riscou um fósforo e acendeu a vela.

– Volte para a cama — disse ele, incerto. — Você não sabe o que está dizendo.

– Nós conseguimos satisfazer o primeiro pedido — disse a senhora, febrilmente. — Por que não o segundo?

– Foi uma coincidência — gaguejou o velho.

– Vá buscar a pata e faça o pedido — gritou a esposa, tremendo de excitação.

O velho virou-se, olhou para ela, e sua voz tremeu.

– Ele já está morto há 10 dias e, além disso, ele… — eu não queria lhe dizer isso, mas… só consegui reconhecê–lo pela roupa. Se já estava tão horrível para você ver, imagine agora?

– Traga-o de volta — gritou a senhora, e o arrastou para a porta. — Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão, foi tateando até a sala e depois até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo ainda não expresso pudesse trazer o filho mutilado apossou-se dele, e ficou sem ar ao perceber que perdera a direção da porta. Com a testa fria de suor, ele deu volta na mesa, tateando, e foi-se amparando na parede até se achar no corredor com a coisa nociva na mão.

Até o rosto da esposa parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava branco e ansioso, e para seu temor parecia ter um olhar estranho. Ele sentiu medo dela.

– Peça! — gritou ela, com voz forte.

– Isso é loucura — disse ele, com voz trêmula.

– Peça! — repetiu a esposa.

Ele levantou a mão.

– Eu desejo que meu filho viva novamente.

O talismã caiu no chão, e ele olhou para a coisa com medo.

Então afundou numa cadeira, trêmulo, quando a esposa, com os olhos ardentes, foi até a janela e levantou a persiana.

Ficou sentado até ficar arrepiado de frio, olhando ocasionalmente para a figura da velha senhora espiando pela janela.

O cotoco de vela, que queimara até a beirada do castiçal de porcelana, jogava sombras sobre o teto e as paredes, até que, com um bruxulear maior do que os outros, se apagou. O velho, com uma imensa sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou para a cama, e um ou dois minutos depois a senhora veio silenciosamente para o seu lado.

Nenhum dos dois disse nada, mas permaneceram deitados em silêncio, ouvindo o tique–taque do relógio. Um degrau rangeu, e um rato correu guinchando através do muro. A escuridão era opressiva e, depois de ficar deitado por algum tempo, criando coragem, ele pegou a caixa de fósforos e, acendendo um, foi até embaixo para pegar uma vela.

Nos pés da escada o fósforo se apagou, e ele parou para riscar outro; no mesmo momento ouviu-se uma batida na porta da frente, tão baixa e furtiva que quase não se fazia ouvir.

Os fósforos caíram–lhe da mão e espalharam-se no corredor. Ele permaneceu imóvel, com a respiração presa até a batida se repetir. Então virou-se e fugiu rapidamente para o quarto, fechando a porta atrás de si.
Uma terceira batida ressoou pela casa.

– O que é isso? — gritou a senhora, levantando-se.

– Um rato — disse o velho com voz trêmula –, um rato. Ele passou por mim na escada.

A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida alta ressoou pela casa.

– É Herbert! — gritou. — É Herbert!

Ela correu até a porta, mas o marido ficou na frente dela e, pegando-a pelo braço, segurou-a com força.
– O que você vai fazer? — sussurrou ele com voz rouca.

– É meu filho; é Herbert! — gritou ela, debatendo-se mecanicamente. — Eu esqueci que ele estava a 10 quilômetros daqui. Por que está me segurando? Me solte. Eu tenho de abrir a porta.

– Pelo amor de Deus não deixe entrar — gritou o velho tremendo.

– Você está com medo do próprio filho — gritou ela, debatendo-se. — Me solte. Eu já vou, Herbert; eu já vou.

Ouviu-se mais uma batida, e mais outra. A senhora com um arrancão súbito soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até a escada e chamou-a enquanto ela corria para baixo. Ele ouviu a corrente chocalhar e a tranca do chão ser puxada lenta e firmemente do lugar. Então a voz da senhora soou, nervosa e ofegante.

– A tranca — gritou ela alto. — Desça que eu não consigo puxar a tranca.

Mas o marido estava de joelhos no chão, procurando a pata desesperadamente. Se pelo menos conseguisse encontrá–la antes que a coisa entrasse. Uma série de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a esposa a colocou no corredor encostada na porta. Ouviu o ranger da tranca quando esta se destravou lentamente, e no mesmo momento encontrou a pata de macaco, e desesperadamente fez o terceiro e último pedido.

As batidas pararam subitamente, embora ainda ecoassem na casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta, e a porta se abrir. Um vento frio subiu pela escada, e um gemido alto e demorado de decepção e tristeza da esposa lhe deu coragem para correr até ela e depois até o portão. O lampião da rua que tremulava do outro lado brilhava numa estrada silenciosa e deserta.

Você sabia ?

Ebaaaa, se já não bastasse eu ter lido o conto eu também vi o filme 😀 mas achei o filme beeeem fraquinho, caso alguém queira ver é só procurar no youtube que tem disponível. ♥ XOXO.

poster_a_pata_do_macaco2

 

Fontes : Assombrados | Wikipédia |

CONTO – É de confundir – Auguste Villiers de L’Isle-Adam

Boa tarde. 

Apresento-lhes o texto É de Confundir (A s’y meprendre, 1883), que faz parte dos Contos cruéis do escritor francês  – Auguste Villiers de L’Isle-Adam (1838-1889). Suas obras constituíam-se em poesia,teatro e narrativa, sendo estas as que mais se destacaram :Isis (1862), Contes cruels (1883), L’Ève future (1886), Histoires insolites (1888) e Nouveaux Contes cruels (1888).

“Comprendre, c’est le reflet de créer.”
— Auguste Villiers de l’Isle-Adam

01

le-livre.com

“Numa cinza manhã de novembro, eu ia descendo pela beira do rio em passo apressado. Uma garoa fria molhava o ar. Passantes negros, abrigados em guarda- chuvas disformes, se entrecruzavam. O Sena amarelado carregava seus barcos de mercadorias parecidos com besouros. Nas pontes, o vento fustigava bruscamente os chapéus, cujos donos lutavam com o espaço para salvá-los, fazendo aqueles gestos e contorções sempre tão penosos para o artista.
Minhas idéias eram pálidas e brumosas; a preocupação de um encontro de negócios, aceito na véspera, atazanava minha imaginação. O tempo era curto, resolvi me abrigar debaixo da marquise de um portão, de onde seria mais cômodo fazer sinal para um fiacre.
Na mesma hora notei, bem ao meu lado, a entrada de um prédio quadrado, de aparência burguesa.
Ele tinha se erguido na bruma como uma aparição de pedra, e, apesar da rigidez de sua arquitetura, apesar do vapor sinistro que o envolvia, percebi de imediato um certo ar de hospitalidade que serenou meu espírito.
“Sem a menor dúvida”, pensei, “as pessoas que moram aqui são gente sedentária! Essa soleira é um convite a parar! A porta não está aberta?”
Então, com a maior polidez do mundo, satisfeito, chapéu na mão — até mesmo meditando em um madrigal para a dona da casa —, entrei, sorridente, e logo me deparei, no mesmo nível, com uma espécie de sala de teto envidraçado, de onde caía a luz do dia, lívida.
Nas colunas estavam pendurados roupas, cachecóis, chapéus.
Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar.
E os olhares eram sem pensamentos, os rostos eram da cor do tempo.
Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles.
E então percebi que a dona da casa, com a cortesia acolhedora com que eu estava contando, era ninguém menos do que a Morte.
Olhei para meus anfitriões.
Decerto, para escapar dos aborrecimentos da vida azucrinante, a maioria dos que ocupavam a sala tinha assassinado seus corpos, esperando, assim, um pouco mais de bem-estar.
Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, escutei o ruído surdo de um fiacre. Ele parou defronte do estabelecimento. Fiz a reflexão de que meus homens de negócios estavam esperando. Virei-me para aproveitar a boa fortuna.
De fato, o fiacre acabava de vomitar, na soleira do prédio, colegiais de pileque, que precisavam ver a Morte para acreditar nela.
Olhei para o fiacre vazio e disse ao cocheiro:
“Passage de L’Opéra!”
Um pouco depois, nos bulevares, achei o tempo mais encoberto, sem nenhum horizonte. Os arbustos, vegetações esqueléticas, pareciam indicar vagamente, com a ponta dos galhos negros, alguns pedestres aos policiais ainda sonolentos.
O carro ia apressado.
Pela vidraça, os passantes me davam a impressão de água correndo.
Chegando ao meu destino, pulei para a calçada e peguei a passagem, repleta de rostos preocupados.
No final do corredor, bem na minha frente, reparei na entrada de um café — desde então consumido por um famoso incêndio (pois a vida é um sonho) —, relegado ao fundo de uma espécie de galpão, debaixo de uma arcada quadrada, de sinistra aparência. Os pingos de chuva que caíam no vidro de cima escureciam mais ainda a pálida claridade do sol.
“É aqui”, pensei, “que me esperam os meus homens de negócios, de copo na mão, olhos brilhantes e desafiando o Destino!”
Então, virei a maçaneta da porta e me deparei, no mesmo nível, com uma sala onde a claridade do dia caía do alto, lívida, pela vidraça.
Em colunas havia roupas, cachecóis, chapéus pendurados.
Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar.
E os rostos eram da cor do tempo, os olhares eram sem pensamentos.
Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles.
Olhei para esses homens.
Decerto, para escapar das obsessões da insuportável consciência, a maioria dos que ocupavam a sala tinha, muito tempo antes, assassinado suas “almas”, esperando assim um pouco mais de bem-estar.
Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, a lembrança do ruído surdo do carro voltou ao meu espírito.
“Com toda a certeza”, pensei, “aquele cocheiro deve ter sido atacado, no correr do tempo, por uma espécie de estupor, pois simplesmente me trouxe, depois de tantas circunvoluções, ao nosso ponto de partida! Todavia, confesso (caso haja um equívoco), o segundo olhar é mais sinistro que o primeiro!…”
Então, em silêncio fechei a porta envidraçada e voltei para casa, firmemente decidido — desconsiderando o exemplo e pouco me importando com o que pudesse me acontecer — a nunca mais fazer negócios. “

Traduzido por  Rosa Freire D’Aguiar

Fontes : Livro – Contos Fantásticos do Século XIX, escolhidos por Italo Calvino. | Wikipédia